Olimpíada de Língua Portuguesa - 8º e 9º - Oficina 5 - Profas. Martha Aurélia e Sayonara Costa

OLIMPÍADA DE LÍNGUA PORTUGUESA (OFICINA 5)



Olá, turmas! Tudo bem com vocês? Desejamos que sim! Nesta semana, vamos estudar alguns recursos de estilo que dão aquele toque especial às crônicas! Preparados?!

As figuras de linguagem são recursos que constroem, por leio da linguagem, imagens que invadem a mente do leitor e o conduzem para dentro do texto, permitindo que ele veja exatamente o que o autor planejou. Um bom cronista tem dois instrumentos básicos: o olhar e a linguagem. Com o olhar, ele reconhece o acontecimento, o momento que merece ser preservado, o qual outros nem notam; com a linguagem, retrata a situação, e as figuras de linguagem o ajudam a fazer isso com sucesso. A seguir, algumas das principais figuras de linguagem:

Figuras de linguagem

Comparação: expressão de termo comparativo. Quase sempre acompanhada da conjunção “como”.

 

Faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

(Manuel Bandeira)

Metonímia: designação de um pormenor pelo conjunto de que se quer falar.

 

Ler Clarice Lispector. (autor pela obra)

Comer o pão (por alimento) que o diabo

amassou (por sofrimento).

 

Metáfora: comparação mental ou abreviada em que prevalece a relação de semelhança. Não aparece a conjunção “como”.

 

Na sua mente povoa só maldade.

Meu coração é um balde despejado

Personificação ou prosopopeia: atribuição de ações, qualidades ou sentimentos a seres inanimados.

 

O tempo passou na janela e só Carolina

não viu.

(Chico Buarque de Holanda)

 

Sinestesia: interpretação de planos sensoriais, mistura de sensações de sentidos diferentes. Como na metáfora, relaciona elementos de universos diferentes.

 

Senti um cheiro doce no ar.

 

Hipérbole: afirmação exagerada.

 

Falei mil vezes para você!

Morri de estudar para o vestibular.

 

Eufemismo: emprego de termos considerados mais leves para suavizar uma expressão considerada cruel ou ofensiva.

 

Foi para o céu, em vez de morreu.

Está forte, em vez de está gorda.

 

Ironia: sugestão pela entonação e pelo contexto de algo contrário ao que pensamos, geralmente com intenção sarcástica.

 

A excelente D. Inácia era mestra na arte de judiar de crianças.

(Monteiro Lobato)


“Acho que crônica é uma espécie de lupa que você coloca em um assunto. E qualquer assunto que você olhar com uma lupa é interessante. [...] consigo ir puxando esse fio para ver aonde ele leva. A crônica é um exercício livre de escrita. Você não precisa de uma história. Uma das graças de escrever é ver onde aquilo vai dar. [...] Muitas vezes também a crônica não nasce de algo vivido; às vezes eu crio uma situação, um encontro com uma pessoa, um vizinho. A crônica não é um relato fiel, a situação que eu estou dizendo que aconteceu, muitas vezes não aconteceu, é ficção.” (Antônio Prata)

O novo normal

Antônio Prata

 Primeira festa pós-quarentena. O anfitrião, ansioso, passa de roda em roda entretendo os convidados. Ao lado da janela avista, sozinho, um desconhecido.

— Oi, tudo bem? Você é o...?

— Novo Normal.

— Não acredito! Você é o Novo Normal?!

— Eu mesmo.

— Rapaz! Você chegou, finalmente! Faz um ano que só falam de você! Ah, o Novo Normal vai ser assim, o Novo Normal vai ser assado! Posso te dar um abraço?

O Novo Normal recua.

— Ah, claro! Contágio, né? Óbvio! Gente, gente! Vem cá! Esse aqui é o Novo Normal!

Uma meia dúzia se aproxima, uns estendem as mãos, outros já se espicham pra um beijo.

— Péra, pessoal, o Novo Normal é sem abraço, beijo ou aperto de mão, certo, Novo? Pode chamar de Novo?

— Prefiro Novo Normal, pra não confundir com o partido.

Uma convidada o olha, curiosa.

— Não sei por que, mas confesso que eu te esperava baixo, gordinho e careca.

— Muita gente me imagina assim. Acho que é o nome, né? Novo Normal, muito “o”, lembra ovo... Mas durante a quarentena o pessoal comeu muito, o Novo Normal é alto.

— Escuta, cê aceita uma bebida? Uma comida?

— Obrigado, eu engordei 7 kg durante a quarentena e bebi demais. Os hábitos do Novo Normal agora são comida saudável e zero álcool.

Uma convidada abandona, discretamente, a taça de vinho sobre uma mesa. Um convidado dispensa uma empada num vaso de pacová. Um outro puxa papo.

— Fala mais de você. O Novo Normal gosta de sair? De ir no cinema? No teatro? Em show?

— Não. Nada disso rola com o Novo Normal. Com a quarentena, as relações à distância se estabeleceram pra ficar.

Uma convidada, decepcionada, toma a dianteira:

— E aquela previsão de que o Carnaval pós-quarentena ia ser tão louco que faria Sodoma e Gomorra ficarem parecendo Aparecida do Norte?

— Deu chabu. O Novo Normal é saudável, cauteloso, precavido. O carnaval pós pandemia será pelo Zoom. Quem quiser anotar aí, aliás: www.telecotech.ziriguizoom.med.

— Ponto med?!

— É. O Carnaval agora é organizado pelo Ministério da Saúde. E o Carnaval de rua, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, porque é todo dentro do Minecraft.

— Que horror! Eu tô solteira! Como eu vou arrumar um namorado, assim?

(...)

— Você não tem namorada?

— Presencialmente, não.

Deprimido com o Novo Normal, o anfitrião sai da roda discretamente e vai tomar uma água na cozinha. Ali encontra uma galera aglomerada, morrendo de rir de uma história contada por um gordinho, baixinho, careca, uma versão gente fina de um George Costanza, com uma cerveja numa mão e um cigarro na outra. O anfitrião cutuca uma amiga por ali:

— Quem é o figura?!

— Não tá reconhecendo? É o Velho Normal! Saindo daqui a gente vai pra um caraoquê na Liberdade e vamos terminar a noite comendo uma bisteca no Sujinho. Topa?

Quatro e meia da manhã, abraçados, todos sobem a Consolação pulando e cantando: “Ooooo! Velho Normal voltô ô ô! Velho Normal voltô ô ô! Velho Normal voltôôôô oooo!”.


Após a leitura da crônica, observe os trechos em negrito e identifique quais figuras de linguagem foram empregadas em cada um deles.

Bons estudos! Até a próxima!


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